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5 Fatos Sobre o Futuro da Web na Era da IA
Geral8 min de leitura

5 Fatos Sobre o Futuro da Web na Era da IA

Answer engines reduzem cliques e corroem o modelo econômico da web. Entenda os sinais, o papel da Cloudflare e 3 cenários para o futuro do conteúdo.

Fábio Eid
15 de janeiro de 2026

Resumo

A web foi financiada por um acordo simples: conteúdo em troca de tráfego. Com a ascensão dos mecanismos de resposta, esse fluxo perde força, enquanto a captura de conteúdo cresce. O texto explica por que isso vira um problema econômico, descreve a proposta da Cloudflare e apresenta cenários para o futuro do conteúdo original.

Principais pontos

Motores de resposta de IA quebram o modelo de monetização de tráfego para criadores de conteúdo.
A 'Internet Morta' não é mais teoria, com grande parte do tráfego online sendo automatizado.
O 'AI slop' está degradando a qualidade da web e o treinamento de futuras IAs.
O 'Colapso do Modelo' ameaça a diversidade e a qualidade dos dados gerados por IA.
A sustentabilidade do conteúdo humano e original na web está em risco.

A Internet Morreu?

Você já teve a sensação de que a internet está se tornando um eco de si mesma? Que os resultados de busca parecem mais genéricos, as redes sociais estão repletas de imagens estranhamente perfeitas e comentários repetitivos, e que encontrar conteúdo genuinamente humano e original exige cada vez mais esforço? Você não está sozinho. Essa percepção crescente de uma web menos autêntica é alimentada pelo que tem sido chamado de "AI slop" (lixo de IA), um dilúvio de conteúdo gerado automaticamente que está poluindo o ecossistema digital.

No centro dessa transformação está uma mudança fundamental na forma como buscamos conhecimento. Por décadas, usamos "motores de busca" que nos forneciam uma lista de links, um mapa para explorarmos o tesouro da web. Hoje, estamos migrando para "motores de resposta". Ferramentas como o ChatGPT e as visões gerais de IA do Google não nos dão mais o mapa; elas nos entregam o "tesouro" diretamente, em forma de resumos convenientes. Essa conveniência, no entanto, tem um custo sísmico. Este artigo explora cinco das conclusões mais surpreendentes e impactantes sobre como essa nova realidade está remodelando a web, para o bem ou para o mal.

O antigo "grande acordo" da internet foi quebrado.

Por décadas, a web funcionou com base em um pacto não escrito, mas fundamental: criadores de conteúdo, de grandes editoras a pequenos blogueiros, permitiam que o Google copiasse e indexasse seus dados. Em troca, o Google enviava tráfego valioso (referrals) para seus sites. Esse tráfego era a moeda da internet, monetizada por meio de anúncios e assinaturas, sustentando todo o ecossistema de conteúdo aberto.

Os motores de resposta de IA quebraram esse acordo. Ao fornecer respostas diretas e sintetizadas, eles absorvem o valor do conteúdo original sem repassar o benefício principal: o clique. Por que um usuário visitaria um site de receitas se a IA já lhe deu a lista de ingredientes e o passo a passo? O resultado é uma queda alarmante no tráfego. Segundo a Similarweb, o tráfego de busca mundial (gerado por humanos) caiu cerca de 15% no ano até junho. Mas o dano é ainda mais profundo em setores específicos: sites de ciência e educação perderam 10% de seus visitantes, sites de referência perderam 15%, e os sites de saúde foram os mais atingidos, perdendo impressionantes 31% de seu tráfego.

Isso importa porque essa perda de receita ameaça diretamente a existência dos seus sites favoritos. O blog de nicho, o site de receitas independentes e as fontes de notícias especializadas que você ama podem simplesmente desaparecer. Para as editoras, essa não é apenas uma estatística; é uma crise existencial.

"Eles estão roubando nosso conteúdo para competir conosco." - Neil Vogel, chefe da Dotdash Meredith

Essa quebra do acordo representa um ponto de inflexão. Se os criadores não forem mais recompensados pelo seu trabalho, o incentivo para produzir conteúdo de alta qualidade para a web aberta pode desaparecer, deixando um vácuo que a própria IA pode não ser capaz de preencher de forma significativa.

A "Internet Morta" não é mais apenas uma teoria da conspiração.

A "Teoria da Internet Morta" é uma ideia, antes restrita a fóruns obscuros, que postula que a maior parte da atividade online não é mais humana. Ela sugere que a internet se tornou um palco dominado por bots, conteúdo gerado automaticamente e interações artificiais, com a atividade humana orgânica sendo cada vez mais marginalizada. O que parecia uma fantasia paranoica agora parece profético.

O fenômeno do "AI slop" viral no Facebook é uma prova viva. Imagens bizarras e sem sentido, como as de um "Shrimp Jesus" (Jesus Camarão), geradas por IA, acumulam dezenas de milhares de interações, muitas delas comentários de uma só palavra como "Amém", provavelmente de contas de bots programadas para engajar. Esse é apenas um exemplo visível de uma tendência muito maior. Um relatório da Imperva de 2023 revelou um dado chocante: o tráfego automatizado na internet atingiu 49,6%, o que significa que quase metade de toda a atividade online não é humana.

A proliferação de ferramentas de IA generativa acessíveis ao público, como o ChatGPT, acelerou drasticamente essa tendência. A capacidade de criar texto e imagens em massa e a baixo custo fez com que a Teoria da Internet Morta saísse da marginalidade para descrever a experiência diária de muitos usuários. Mas essa enxurrada de conteúdo sintético não é apenas irritante — ela está ativamente envenenando o poço para os próprios sistemas de IA que a criam, levando a um assustador ouroboros digital.

A IA está se alimentando de seu próprio escapamento, um processo chamado "Colapso do Modelo".

O que acontece quando os modelos de IA, que foram treinados com a vasta gama de conhecimento humano na internet, começam a ser treinados com dados gerados por outras IAs? A resposta é um processo degenerativo conhecido como "Colapso do Modelo". É o equivalente digital de fazer uma fotocópia de uma fotocópia. A primeira cópia parece nítida, mas na centésima iteração, a imagem é uma mancha borrada e distorcida que perdeu todos os detalhes do original.

Um artigo de pesquisa sobre o tema descreve como, com o tempo, os "eventos prováveis são superestimados" e os "eventos improváveis são subestimados". Isso leva a uma perda catastrófica de diversidade. As "caudas da distribuição" — que representam eventos raros, informações de nicho, nuances culturais e vozes marginalizadas — simplesmente desaparecem. O resultado é grotesco. Um estudo mostrou um modelo de linguagem que, após nove gerações de autoalimentação, degradou um texto histórico coerente em uma lista sem sentido de diferentes tipos de lebres.

Imagine uma web onde os resultados de busca por "destinos de viagem únicos" mostram apenas Paris e Roma, porque a IA esqueceu que lugares como o Butão ou as Ilhas Faroe existem. Estamos caminhando para um futuro onde a internet se torna um ciclo de feedback de conteúdo cada vez mais homogêneo, com modelos de IA reforçando seus próprios erros e preconceitos, perdendo o contato com a rica complexidade da experiência humana. E à medida que a praça pública da internet se torna uma câmara de eco distorcida de mediocridade gerada por IA, não é surpresa que as pessoas a estejam abandonando por espaços mais silenciosos e autênticos.

Em resposta, estamos nos retirando para "Florestas Escuras" digitais.

Em um universo online barulhento, caótico e potencialmente hostil, qual é a estratégia de sobrevivência mais inteligente? A "Teoria da Floresta Escura da Internet", inspirada na ficção científica, oferece uma resposta: ficar em silêncio e se esconder. A teoria sugere que, à medida que a internet pública se torna um lugar dominado por bots, spam e vigilância, os usuários se retiram para espaços privados para evitar atenção indesejada e buscar interações autênticas.

Essa teoria já se manifesta em tendências de comportamento observáveis. Há uma migração em massa das praças públicas das redes sociais para as "florestas escuras" de comunidades online privadas. Espaços como servidores de Discord, Grupos de Facebook e Canais do Instagram estão se tornando os principais locais de interação. O Relatório de Tendências de Mídias Sociais de 2024 da Sendible confirma isso, afirmando que mais da metade dos usuários agora prefere interagir nesses ambientes mais controlados.

Essa retirada representa uma mudança fundamental no comportamento online. A era da busca por visibilidade em massa está dando lugar a uma era de busca por conexão significativa em comunidades menores, baseadas em confiança e interesses compartilhados. Estamos trocando o megafone por conversas sussurradas em salas seguras.

Uma solução pode ser criar um novo acordo: fazer os bots pagarem.

Com o antigo modelo econômico da web quebrado, novas ideias radicais estão surgindo. Uma das mais promissoras vem de Matthew Prince, CEO da Cloudflare. Ele sugere um sistema "pay-as-you-crawl", onde as empresas de IA pagariam aos sites pelo conteúdo que coletam para treinar seus modelos.

A visão por trás dessa ideia é criar um novo equilíbrio econômico que valorize a contribuição humana, em vez de apenas a extração de dados por máquinas.

"um mundo onde os humanos obtêm conteúdo de graça, e os bots pagam uma tonelada por ele". - Matthew Prince, CEO da Cloudflare

Essa não é uma ideia isolada. Startups como a Tollbit já estão construindo essa infraestrutura, apresentando-se como um "paywall para bots". Essa abordagem poderia reverter a dinâmica atual. Em vez de incentivar a produção de conteúdo genérico e otimizado para algoritmos ("A que horas começa o Super Bowl?"), ela criaria um forte incentivo econômico para a criação de conteúdo único, especializado e de alto valor - exatamente o tipo de informação que os modelos de IA precisam, mas que o sistema atual está destruindo.

Conclusão: Qual Internet Queremos Construir?

Estamos em uma encruzilhada. O antigo modelo da web aberta, alimentado pela troca de conteúdo por tráfego, está morrendo sob o peso da extração de dados em massa pela IA. O resultado é uma internet que parece mais oca, mais sintética e menos humana. No entanto, em meio a essa aparente decadência, novas ideias e novos comportamentos estão surgindo, desde a retirada para comunidades privadas até propostas ousadas para redefinir o valor econômico do conteúdo.

A web está passando por uma de suas transições mais consequentes, comparável à ascensão dos motores de busca e das redes sociais. A web aberta como a conhecíamos pode estar morrendo, mas o que nascerá de suas cinzas? A questão não é se a internet sobreviverá, mas que tipo de internet escolheremos construir a seguir.

Fábio Eid

Fábio Eid

Coordenação de Projetos e Marketing

Advogado, estrategista e entusiasta em inteligência artificial. Gestor de Mídias e operações de vendas para Empresas. Combina análise rigorosa com prática comercial. Hoje, na Entende.AI, se dedica ao estudo da Inteligência Comercial e formas de implementá-la para aumentar os resultados de uma operação.

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